| AL BERTO |
| ouve-me que o dia te seja limpo e a cada esquina de luz possas recolher alimento suficiente para a tua morte. Al Berto, Horto de Incêndio |
Dados biográficos:
Nasceu em Coimbra a 11 de Janeiro de 1948 e morreu em Lisboa, a 13 de Junho de de 1997. Poeta e editor. De seu verdadeiro nome Alberto Raposo Pidwell Tavares, começou a publicar poesia no final da década de 70 (À Procura do Vento num Jardim d'Agosto, 1977), sendo actualmente considerado um dos mais importantes poetas da sua geração e um dos mais originais, possuidor de um universo de características muito próprias no panorama da poesia portuguesa da actualidade. De facto, cultivando uma poesia fortemente lírica e de pendor confessional, como aliás é patente no título, de 1985, Uma Existência de Papel, Al Berto tem vindo a construir um universo poético que foi já considerado "um dos mais melancólicos da nossa poesia recente" por Fernando Pinto do Amaral.
Espelhando vivências de uma juventude errante, em deambulações por uma certa Europa marginal e underground - que o poeta cumpriu vivendo, entre o final da década de sessenta e a década de 70, numa comunidade urbana de Bruxelas e nos bas-fonds de Paris e Barcelona -, oscilando entre o excesso da experiência emocional e física e uma melancolia desolada e solitária, a obra de Al Berto reflecte a presença imaginária de Genet e Rimbaud na paixão urgente e dolorosa, na transgressão sexual, na vertigem auto destrutiva, na solidão, na experiência do deserto e da morte.
Ao situar o seu discurso poético a meio caminho entre a extrema
lucidez e a ternura, a exposição narcísica e a assunção da literatura como ficção
inseparável da vivência, Al Berto tem sido considerado, na tonalidade crepuscular que
envolve toda a sua obra, uma voz "entre a subjectividade romântica e a
impessoalidade modernista" (Hélder Moura Pereira), num território já pertencente ao
domínio da pós-modernidade.
Obra:
Poesia
À Procura do Vento num Jardim d'Agosto. Lisboa: 1977.
Meu Fruto de Morder, Todas as Horas. Lisboa: 1980.
Trabalhos do Olhar. Lisboa: Contexto, 1982.
O Último Habitante. Lisboa, 1983.
Salsugem. Lisboa: Contexto, 1984.
A Seguir o Deserto. Lisboa: & etc., 1984.
Três Cartas da Memória das Índias. Lisboa: 1985.
Uma Existência de Papel. Porto: Gota d'Água, 1985.
O Medo (Trabalho Poético 1974-1986). Lisboa: Contexto, 1987.
O Livro dos Regressos. Lisboa: Frenesi, 1989.
A Secreta Vida das Imagens. Lisboa: Contexto, 1991.
Canto do Amigo Morto. Lisboa: 1991.
O Medo (Trabalho Poético 1974-1990). Lisboa: Contexto, 1991.
Luminoso Afogado. Lisboa: Salamandra / Casa Fernando Pessoa, 1995.
Horto de Incêndio. Lisboa: Assírio & Alvim, 1997.
O Medo. Lisboa: Assíro & Alvim, 1998.
Prosa
Lunário. Lisboa: Contexto, 1988.
O Anjo Mudo. Lisboa: Contexto, 1993.
Traduções:
Castelhano
Doce señales. Trad. Adolfo Navas. Madrid: Cuaderno de Poesía Portuguesa, 1989.
Una Existencia de Papel. Trad. Ángel Campos Pámpano. Valencia: Pre-Textos, 1993.
La secreta vida de las imágenes. Trad. José Luis Puerto, Amarú Ediciones, 1997.Francês
Voyage d'un Portugais avec un stylo en Cévennes. (Viagem de um Português com uma Caneta nas Cévennes). In Les itinéraires littéraires en Corèze. Ed. Jacques Brémond, 1989.
Chant de l'ami mort /Canto do Amigo Morto (ed. bil.). Lisboa: Europália, 1991.
La peur et les signes (anthologie). Trad. Michel Chandeigne. Bordeaux: L'Escampette, 1993.
La secrete vie des images. Trad. Jean-Pierre Leger. Bordeaux: L'Escampette, 1996.Inglês
(A Secreta Vida das Imagens). Trad. Richard Zenith. Dublin: Mermaid Turbulence, 1997 (a sair).Italiano
Lavori dello sguardo. Trad. Carlo Vittorio Cattaneo. Roma: Florida, 1985.
Prémios:
Prémio Pen Club de Poesia, 1988 (O Medo).
Sobre a obra:
Dir-se-ia que esta poesia, pela sua violência orgiástica, tende a um estado amorfo, nocturno, de caos para poder renascer com mais vigor na sua forma diurna. (...) Mas é essa regeneração ou esse renascimento diurno que não se encontra na poesia de Al Berto: a escuridão da angústia e do medo domina-a, sem que a violência da dispersão e do desamparo se resolva na plenitude, na presença ou na experiência do uno. (...) a poesia de Al Berto é um grito da fragilidade extrema e irredutível do ser humano, do seu desamparo infinito, da sua revolta absoluta e sem esperança.
António Ramos Rosa
JL- Jornal de Letras, 20/ 6/ 89.
Um leitor desprevenido poderá deixar-se desorientar pela pregnância inicial de um léxico que tende a conformar-se como código de referências consagradas: é o "corpo", é o "fogo", é o "desejo", que aqui reaparecem com as suas habituais inclinações. Mas engana-se. Não estamos perante um livro de amor, embora do amor se possam ler algumas definições certeiras (...) Não, nada disso, ou pelo menos nada do que nisso existe de ostensivo ou absorvente. Pelo contrário: este livro é um livro de separação (...) Para sermos correctos: é um livro em que tudo se põe a morrer.
Eduardo Prado Coelho (sobre Uma Existência de Papel)
A Noite do Mundo, 1988
A publicação de O Medo, em 1987, sendo a reunião do trabalho poético de 1974 a 1986, veio confirmar Al Berto como um dos poetas mais legíveis do final dos anos 70 e da década de 80. Legível não no sentido da facilidade proporcionada pelo encontro das fórmulas já conhecidas, mas sim, precisamente, legível pelo prazer de reencontrar um discurso capaz de nos surpreender e emocionar com a intensidade das descobertas.
E. M. de Melo e Castro
Colóquio-Letras nº 112, 1989
(...) como sempre, reconhecemos em Al Berto o mesmo fascínio antes experimentado nos seus poemas, a sua vocação delirante e instintual, um informe universo onde se organizam litanias e exaltações, o inventário da ternura e da despedida, do amor e do desamor.
Manuel António Pina
apresentação de Lunário, Porto, 27/1/89.
É claro que o recorte inegavelmente narcísico desta obra poderá ter afastado alguns leitores, sobretudo os que vinham marcados pelas ideias do despojamento textual e do rigor da escrita. Ora, de facto, e apesar da aparente simplicidade de processos retóricos, o que sucede em Al Berto consiste exactamente na fuga a este despojamento. A sua perspectiva assenta num derrame textual que pretende funcionar como testemunho de um sujeito, de um eu que não teme arrastar toda a acrga dos seus afectos para as páginas que escreve. Algumas vezes, fica-se mesmo com a sensação de que o critério de legitimação para uma escrita como esta passa por algo que vem do lado do vivido.
(...) na sua base está a ideia de transgressão do interdito como fundamento do impulso erótico (...) A violência dessa carga marginal devolve-nos inúmeras facetas de um mundo desconhecido à luz do dia (...) com os seus bares e boîtes de má fama, os seus rapazes e os seus travestis, as suas ruas longa e nocturnamente vagabundeadas, os dramas em que naufragam adolescentes à beira dos limites, tudo isso que a poesia de Al Berto sabe dar-nos como muito poucas.
Fernando Pinto do Amaral
O Mosaico Fluido, 1991.
Do corpo físico ao corpo espiritual. Al Berto tem vivido uma unidade apaixonada entre obra e vida. Horto de Incêndio surge, como um balanço de um testemunho literário e pessoal, apegado a um ascetismo em estado selvagem. Indissociável este livro, e, em particular, morte de rimbaud, da problemática da doença e da morte (...) Revelando-se, o poeta transforma o seu corpo melancólico no corpo do fim do século, acrescentando-lhe a esperança de todas as pacificações.
Diário de Notícias, 26/ 4/ 97
Gostava imenso dele, achava-o uma pessoa encantadora e um bicho da noite, da tal noite que já vai rareando. (...) Li o Horto de Incêndio, tem muitos bons poemas. Para mim, o poeta é muito mais importante que os poemas e ali está um poeta. Acho que é o melhor que posso dizer.
Mário Cesariny
Público, 15/6/97.